






























morbidart
nação, caindo, como a águia ferida, das alturas do espaço, se rojava pela morada dos homens. Era este canto doloroso e tétrico, o qual lhe transudava do coração em noites não dormidas, na montanha ou na selva, na campina ou no estreito aposento, que ele derramava em torrentes de amargura ou de fel sobre pergaminhos que nem o ostiário nem ninguém tinha visto. Estes poemas, em que palpitava a indignação e a dor de um ânimo generoso, eram o Getsémani do poeta. Todavia, os virtuosos nem sequer o imaginavam, porque não perceberiam como, tranquila a consciência e repousada a vida, um coração pode devorar-se a si próprio, e os maus não criam que o sacerdote, embebido unicamente em suas esperanças crédulas, em suas cogitações de além do túmulo, curasse dos males e crimes que roíam o império moribundo dos Visigodos; não criam que tivesse um verbo de cólera para amaldiçoar os homens aquele que ensinava o perdão e o amor. Era por isso que o poeta escondia as suas terríveis inspirações. Monstruosas para uns, objecto de ludíbrio para outros, numa sociedade corrupta, em que a virtude era egoísta e o vício incrédulo, ninguém o escutara, ou, antes, ninguém o entenderia.
Levado à existência tranquila do sacerdócio pela desesperança, Eurico sentira a princípio uma suave melancolia refrigerar-lhe a alma requeimada ao fogo da desdita. A espécie de torpor moral em que uma rápida transição de hábitos e pensamentos o lançara pareceu-lhe paz e repouso. A ferida afizera-se ao ferro que estava dentro dela, e Eurico supunha-a sarada. Quando um novo afecto veio espremê-la é que sentiu que não se havia cerrado, e que o sangue manava ainda, porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a tinha aberto: o amor da pátria, despertado pelos acontecimentos que rapidamente sucediam uns aos outros na Espanha despedaçada pelos bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco os severos princípios do cristianismo em flagelo e martírio daquela alma, que, a um tempo, o mundo repelia e chamava e que nos seus transes de angústia sentia escrita na consciência com a pena do destino esta sentença cruel: nem a todos dá o túmulo a bonança das tempestades do espírito.
Capítulo IV
RECORDAÇÕES
Onde se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?
Sto EULÓGIO, Memorial dos Santos, liv. 3º
4
O mundo actual nunca poderá entender plenamente o afecto que vibrando-me dolorosamente as fibras do coração, me arrastava para as solidões marinhas do promontório, quando os outros homens nos povoados se apinhavam à roda do lar aceso e falavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos de um instante.
E que me importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra de Espanha gerações que compreendam as palavras do presbítero.
Arrastava-me para o ermo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida, e de que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.
Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrado na existência com um coração que trasborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dele:
É o ter dado às palavras – virtude, amor pátrio e glória – uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia:
É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo ténue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as acções dos homens.
É então que para ele há unicamente uma vida real – a íntima; unicamente uma linguagem inteligível – a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivência não travada de perfídia – a da solidão.
Capítulo V
A MEDITAÇÃO
Então os Godos cairão na guerra;
Então fero inimigo há-de oprimi-los
Com ruínas sem conto, e o susto e a fome.
Hino de Sto Isidoro, LUCAS DE TUI, Chronicon, liv. 3º
2
Quem é hoje cristão e godo nesta nossa terra de Espanha?
Uma geração degenerada pisa os restos de heróis: homens sem crença, blasfemos ou hipócritas, sucederam aos que criam na grandeza moral do género humano e na providência de Deus.
Dantes, os príncipes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos reis a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da pátria.
Dantes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se para beijar a fímbria da sua estringe; porque a paz e a esperança entravam em todas as moradas sobre que desciam as bênçãos dele.
Dantes, o juiz era o pai do oprimido, o tribunal o abrigo do inocente, a justiça o nervo do Império Gótico.
Dantes, nos conselhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres, as leis iam buscar a sanção da sabedoria e aferir-se pela utilidade comum. Lá, o rei sabia que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos Godos, que o ceptro era cajado de pastor, não cutelo de algoz, e a coroa uma carga pesada, não uma auréola de vanglória.
Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruído das festas, os francos e os Vascónios talam as províncias do Norte, e a espada dos guerreiros só reluz nas lutas civis.
Hoje, os príncipes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das tradições de avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da Germânia que os romanos imbeles davam o nome de reis.
Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado: os Claustros das catedrais velam com o seu manto de pedra as abominações da torpeza, e as mãos do sacerdote deixam muitas vezes humedecida a tela que veste os altares com vestígios do sangue derramado covarde e vilmente.
Hoje, a cobiça assentou-se no lugar da equidade: o juiz vende a consciência no mercado aos poderosos, como as mulheres da Babilónia vendiam a pudicícia nas praças públicas aos que passavam, diante da luz do dia.,
Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos homens livres: a coroa é uma conquista, a lei vontade do desonrado vencedor de pelejas domésticas, a liberdade palavra mentida.
Império de Espanha, império de Espanha! porque foram os teus dias contados?
Capítulo VI
SAUDADE
Cristo! – dá-me o perdão, dá-me o remédio;
Que entre tão vário mal fraqueia a mente!
EUGÉNIO TOLEDANO, Opúsculos, XI
Na Ilha Verde.
Ao pôr do Sol das calendas de Abril da era de 749.
1
O mar estava tranquilo, e o ar puro e diáfano. As costas de África fronteiras, lá na extremidade do horizonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.
A aragem do norte encrespava suavemente a superfície das águas; as ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areal da baía.
O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmónio. Uma saudade indizível atraía-me para o mar.
Saltei na barca; o ruído que fiz despertou Ranimiro.
– Ao largo – disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos.
– Para onde, presbítero? – perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns momentos em silêncio.
– Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais nada – repliquei. – Leva-me para onde te aprouver.
– Se vos parece – tornou Ranimiro –, rodearemos a Ilha Verde, entraremos no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ela estará agora esmaltada de verdura e boninas.
Calei-me: o barqueiro tomou por aprovação o meu silêncio. Voltando a proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeando a sua margem ocidental, abicámos em terra pelo lado da enseada que a separa do continente.
Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria riquíssima lançada ao som das águas, a superfície da ilha agitava-se trémula com a aragem da terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da relva.
Assentado à sombra de uma rocha que formava um promontoriozinho do lado do sul, lancei os olhos em volta até onde se descobria o horizonte. Lá, no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na ponta da África os cimos das torres de Septum fronteira aos cerros escalvados do Calpe. De Septum para o ocidente as costas africanas contrastavam nas suas ondulações suaves com a penedia áspera das ribas hispânicas, e, confrangido entre os dois continentes, o mar balouçava-se resplandecente com os raios já inclinados do Sol.
De roda de mim a atmosfera estava impregnada de um hálito perfumado: era a natureza que sorria afagada pela Primavera. As aves aquáticas redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as águas, e pareciam, nos seus voos incertos, ora vagarosos, ora rápidos, folgarem com os primeiros dias da estação dos amores.
Uma melancolia suave se me erguia lentamente no coração, debaixo daquele céu puro, naquela atmosfera balsâmica, ante aqueles horizontes saudosos. As lágrimas rebentaram-me involuntariamente dos olhos.
Era feliz neste momento, porque repousava de amarguras. Olhei para a barca: Ranimiro adormecera de novo à proa. Repousavam bem perto um do outro a matéria e o espírito.
Bem-aventurado, pensei eu comigo, aquele em quem os afagos de uma tarde serena de Primavera no silêncio da solidão produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do ruído da vida!
E este pensamento trouxe-me pouco e pouco à memória as tempestades do passado. Ai de mim! Logo se me enxugaram as lágrimas, porque eram de consolação, e essa lembrança as estancou!
2
Porquê não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmúrio das vagas sonolentas, ao sussurro da brisa do norte?
Porque mulher bárbara não entendeu o que valia o amor de Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabia mais um nome de avós do que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados de ouro do que nos meus.
As mão imbeles de uma donzela e de um velho esmagaram e despedaçaram o coração de um homem, como os caçadores covardes assassinam no fojo o leão indomável e generoso.
E, todavia, este coração sentia a voz da consciência pregoar-lhe largos destinos! Porquê não emudeceu essa voz quando do pórtico do templo lancei ao mundo a maldição da despedida?
Porquê me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas esperanças?
É porque o viver é o ecúleo do espírito: a alma estorce-se como agonizante no meio dos mais incomportáveis tormentos, sem nunca poder expirar, e os seus afectos profundos são com ela; não lhes é dado o morrer.
Paz e esquecimento, oh meu Deus!
3
Os raios derradeiros do Sol desapareceram: o clarão avermelhado da tarde vai quase vencido pelo grande vulto da noite, que se alevanta do lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e luminosa surge a meus olhos, oh Hermengarda, semelhante à aparição do anjo da esperança nas trevas do condenado.
E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a fronte a coroa das virgens; sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor; o amículo alvíssimo da inocência, flutuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhe as formas divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos belas que a realidade.
É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepúsculo, tu não és para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordação indecifrável; um consolo e ao mesmo tempo um martírio.
Não eras tu emanação e reflexo do céu? Porquê não ousaste, pois, volver os olhos para o fundo abismo do meu amor? Verias que esse amor do poeta é maior que o de nenhum homem; porque é imenso, como o ideal, que ele compreende; eterno, como o seu nome, que nunca perece.
Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! Adorava-te só no santuário do meu coração, enquanto precisava de ajoelhar ante os altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dois templos?
Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre.
Porquê vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz ensanguentada do Calvário; quando a mão inexorável do sacerdócio soldou a cadeia da minha vida às lájeas frias da igreja; quando o primeiro passo além do limiar desta será a perdição eterna?
Mas, ai de mim!, essa imagem que parece sorrir-me nas solidões do espaço está estampada unicamente na minha alma e reflecte-se no céu do oriente através destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes queimou as lágrimas.
Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!... Crês que morri, ou porventura, nem isso crês; porque para creres era preciso lembrares-te, e nem uma só vez te lembrarás de mim!
Lá, no tumulto dos cortesãos, onde o amor é cálculo ou sentimento grosseiro, terás achado quem te chame sua, quem te aperte entre os braços, quem tivesse para dar a teu pai o preço do teu corpo e te comprasse como alfaia preciosa para serviço doméstico. O velho estará contente, porque trocou sua filha por ouro.
A isto chama prudência o mundo estúpido e ambicioso; a isto, que não é mais do que uma prostituição abençoada sacrilegamente perante as aras sacrossantas. Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante me tem feito vagueara louco pelas montanhas, uivando como o lobo esfaimado e tentando despedaçar os rochedos com as mãos, donde me goteja o sangue!
E tu folgas e ris! Oxalá nunca saibas quão intenso e atroz é o meu tormento, que devo velar diante dos homens debaixo de aspecto tranquilo, como se, em vez de martírio, ele fosse um abominável crime.
4
E quem te disse, presbítero, que o teu amor não era um crime?
Tens razão, consciência! Quando aos pés do venerável Siseberto o gardingo Eurico jurou que abandonava o mundo, devia despir as paixões que do mundo trouxera.
A luz brilhantes de afeições e esperanças a que vivia e que me povoava o coração de felicidade devia apagar-se então, como a lâmpada do templo ao amanhecer; porque eu voltava-me para o céu, buscando a luz do Senhor.
Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo desapareceu no ocaso, e os que me crêem alumiado mal pensam que vivo em trevas!
As minhas paixões não podiam morrer, porque eram imensas, e o que é imenso é eterno.
E assim, nem ouso pedir a paz do sepulcro; porque para mim não haveria paz, senão no aniquilamento.
O aniquilamento! Que mal te fiz eu, oh meu Deus, para não me deixares cá dentro mais que uma ideia risonha, mais que um desejo capaz de encher o abismo da minha desventura? Que mal te fiz eu para que esse desejo, essa ideia seja a que unicamente resta ao precito que se revolve em perpétuas angústias?
Mas para mim, como para ele, tal pensamento é vão e mentido! Eternidade, eternidade, a alma do homem está encerrada e cativa no ilimitado do teu império!
MORBIDAR Arte e cultura Gótica
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